Noturna


 

A vida é feita de ciclos, neles a morte está incluída como fase de transição, inoculação no silêncio, de fim para um recomeço posterior. O ciclo vida-morte-renascimento faz parte de nossas vivências.

 

O Noturna passa por esse momento de hibernação, de morte precisa, para, quem sabe, voltar um dia, qualquer hora com uma nova vida, ou, no contraditório, talvez nunca.

 

Aqui está exposta parte de minha vida - em lira, em poesia, em prosa amadora - que durou exatamente dois anos. O Noturna se calará. Mas o que nele foi exposto continuará nesses links ao lado, nos posts abaixo, pois passado não se deleta, guarda-se em algum cantinho obtuso de nós mesmos.

 

A todos que me visitaram nesse espaço agradeço de coração. Caso tenha chegado até aqui, deixe um "rastro", pois vejo que tenho visitantes mesmo em silêncio.   

 

 

Namastê

 

Cíntia Melo

 

PS. Lembro que todos os textos aqui postados, bons ou ruins, são de minha autoria.

 



Escrito por Cíntia Melo às 10h02
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 Aventura de amar

Venha bailar comigo pelos ares,
desafiar intensas tempestades,
banhar-se em rios e mares.
Aninhe-se nos meus braços,
na maciez de um aconchego,
sem tempo, forma ou espaço.

Deixe o amor entrar pelos poros
acender em nossos corpos fogueiras
despertar, em nós, sorrisos e estrelas.
Prove do meu beijo e de minha calma,
deslize pelos meus longos cabelos
até chegar ao centro de minha alma.

Mergulhe, sem receios da sensatez,
nessa aventura meio alucinada
e deixe-me olhar tuas faces veladas.
Assim, vou penetrar por cavernas,
encontrar desertos e despenhadeiros,
descobrir segredos e paisagens abstratas.


Vamos viver essa simbiose secreta,
mesmo que estranhas espadas nos firam,
mesmo que armadilhas nos capturem
de volta para fora de nossos corpos,
para o mundo das formas e expressões.
Não desista da aventura de amar.

Venha conhecer a minha essência,
desvelar os véus e mirar-me ao infinito.
Veja o mar se encontrar com o céu,
a linha do horizonte que os persegue
e deixe a dança louca de seu amor,
embalar todos os nossos sentidos.

Aqui não tenho voz e nem roupas,
observe-me na lentidão uniforme,
nas cores pulsantes de minha alma,
pelos ares, andando por terras ermas.
Mas não receie se perder em mim,

chame meu nome, que eu atenderei.

(Poesia escrita alguns anos atrás.)



Escrito por Cíntia Melo às 22h27
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Lamentos e a Fênix

 

A lâmina atinge meu peito,

suas duas faces cortantes

rasgam minha carne.

Uma faz sangrar, a outra, delirar.

 

Navego num mar sem rumo,

o desespero me domina.

Nas noites azuis, enfrento

uma aventura de outro mundo.

 

A dama do mar canta e a ouço,

no caminho de muitas voltas,

sóis iluminam meu espectro,

luas glaciais apontam meus erros.

 

Uma senhora e três caminhos,

escolho o iluminado, mas é o abismo.

Foi ilusão falseando sentidos.

Onde está mesmo meu corpo?

 

Gritos reverberam: queimado, queimado...

A minha volta, rostos desdenham-me,

no submundo de Hades, a sagrada verdade.

O preço da ilusão e a chance da fênix.

 

O barqueiro leva-me em cinzas

pelo rio caudaloso dos lamentos.

Renascerei outra vez em setembro,

e do eu interior nunca mais esquecerei...

 

 



Escrito por Cíntia Melo às 10h59
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A liberdade que escraviza

 

Na adolescência, analisada de modo prosaico, a palavra liberdade carrega em si a maior parte dos signos a que representa.  Para o jovem, liberdade é a insígnia de fazer o que quer, chegar em casa sem estresses de horários. Ou seja, nem sempre cumprir regras as quais os pais, escola ou sociedade impõem. Mais que isso, significa transgredir qualquer limitação.

Porém analisando com cautela, a liberdade que o ser humano pode usufruir precisa de um olhar minucioso. Com a maturidade, ela vai ganhando contornos maldosos que nem sempre são percebidos por suas sutilezas. De algum modo lembra o mito do deus grego Apolo. Tão intenso e solar, o cavalheiro do Olimpo ofertava luz em demasia ofuscando a sombra necessária para o amadurecimento do que era gerado.

Assim é a liberdade. Nem sempre poder fazer o que se tem vontade significa ser livre, pois nem toda liberdade significa a luminosidade. A liberdade é capaz de escravizar. Isso cria um antagonismo obscuro que não é tão facilmente perceptível.

Vícios, dependências ou manias condicionantes tolhem o poder de liberdade. Essas penumbras é um grande engodo que ilude este sentimento - por assim dizer - estado de espírito, direito civil, financeiro ou ainda emocional de ser realmente livre.

Tudo o que é capaz de ser mais forte do que a própria razão da alma é escravizador e se contrapõe ao estado do “ser livre”. Nem todas as pessoas que pensam serem detentoras da liberdade na verdade a são. Livres são os senhores da própria alma, do seu pensar, do agir e do ser capaz de balizar suas emoções.

A verdadeira liberdade mora longe dos grilhões da escravidão. Na sociedade angustiante e neurótica atual pode-se concluir, então, que há mais escravos que seres humanos realmente livres. Das relações estabelecidas com si mesmo, com pessoas ou grupos sociais, sutilmente surgem algemas que condicionam pessoas a comportamentos compulsivos, sentindo-se, contraditoriamente, a mais livre das criaturas.

 



Escrito por Cíntia Melo às 00h05
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Do templo das mulheres de asas

 

Deixo rastros tenebrosos por onde passo.

Meus sentimentos são invernais

e os pensamentos, como larvas de vulcão.

 

Todos pensam que sou maléfica,

assustam-se com minha ébria aparência,

mas sou a sombra do sol que mareia teus olhos.

 

Sou o anjo protetor de tuas noites de angústia

E tu te negas a fitar o meu rosto,

mas te reflito no espelho, no livro, no tempo:

 

A jovem que grita no abismo adolescente,

a mãe que chora para alimentar suas crias.

Sou o desespero, a dor, a adaga que ensina.

 

Surrupio muitas vidas, tento almas perdidas.

Sangro tua pele para que aprendas o caminho,

afinal sou do templo das mulheres de asas.

 

 



Escrito por Cíntia Melo às 12h30
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Pétalas Vermelhas 

 

São flores vermelhas,

rosas escarlates...

Brotam nas veias.

A paixão de Freya,

a nórdica guerreira...

Fogo que incendeia.

É amor sem rédeas,

que galopa incessante...

Na lua cheia.

E o sangue pulsa,

cheio de desejos...

Flores de Lua.

É Yemanjá,

que emerge do mar...

Nas noites escuras.

Gema rara,

brilha no lençol cetim...

Entre lábios carmim.

Em cada flor,

uma lua rubra...

O corpo da mulher nua.

Alma sedutora,

num vinho derramado...

Paiol de desejos.

Perdidas centelhas,

explodem no suor da pele...

Entre pétalas vermelhas.

 

 



Escrito por Cíntia Melo às 22h24
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O mundo e eu...

 

Já fui intimista, cética e comunista, já li Fernando Morais e Brasil Nunca Mais. Engrossei a marcha do Fora Collor, estudei textos de Hegel, Marx e Gramsci.

Cantei “Pra não dizer que não falei de flores”, mas faz tanto tempo que nem me lembro. Apesar da poesia, compreendi que: ideologia não muda o homem, o homem é quem faz sua teoria.

Enquanto se repetir os mesmos abusos, não adianta escolher um lado do muro. Aliás, o muro de Berlim caiu em 88. De lá pra cá, a tecnologia deu um salto, mas o impasse continua: a fome devasta países como há séculos. A estrutura social quase não evoluiu, poucos continuam com muito e muitos, com pouco.

Serão partidos e ideologias capazes de mudar o país? Ou será atitude carregada de retidão, caráter, honestidade e sentimento de justiça?

Quando pensei assim, viajei para dentro de mim. Um encontro com meus defeitos e enganos, minhas virtudes, sentimentos e pensamentos... Deu vontade de crescer e aprender. Tornar-me um ser humano mais elaborado, menos egoísta e imbuído de senso de justiça.

Interessei-me por várias vertentes religiosas e espiritualistas. Fui parar na mitologia, nos povos medievais, nas sociedades matrifocais. Apaixonei-me pela natureza, pelo verde, pela esperança, pela terra.

Infelizmente o poder ainda domina o ser humano. Quando o homem aprender a dominar o poder, viveremos numa sociedade menos desigual, tenho certeza. Procuro plantar sementes, sejam reais ou de palavras.

Continuarei torcendo pela evolução, pelo florescer da justiça, paz e vontade nos nossos corações e mentes. Aí sim, falaremos de flores, caminharemos e cantaremos uma mesma canção...

 

 



Escrito por Cíntia Melo às 22h19
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Almas vazias

 

Comédias e gargalhadas se espalham pela rua,

reluz a carne crua nas duras esquinas da vida.

 

A paixão açoita corpos, curvas e músculos,

promete brilhos ilusórios e a liberdade de mentira.

 

Artistas talentosos mofam numa apatia escura,

há frustrações e dores entre os inconformados.

 

Bebida e fumaça anestesiam; os risos se alastram,

o mundo real e a fantasia confundem os sentidos.

 

O que será dos homens escravos da liberdade:

morfina, sangria, heroína e almas vazias?

 

 

Don´t forget: the magic isn´t lost...

Cíntia Melo

 

 



Escrito por Cíntia Melo às 21h56
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Os portais do tempo e o guerreiro

  

Seria inusitado se o óbvio não se interpusesse aos nossos olhos com freqüência: o tempo é guardião de grandes respostas. Basta prestar atenção. Note a jornada pessoal de cada um de nós. A teia da vida, de forma majestosa, conecta-se a acontecimento, tece seus fios, movimenta-se por caminhos inesperados, ou às vezes previsíveis. Em nossa existência, estão embotadas relações (com pessoas, coisas ou situações) que se desenrolam em fatos, que por sua vez, geram aprendizados. A lei cósmica da ação e reação se mostra claramente, aponta os enganos, desfaz os falseados sentimentos.  

Descobrir a simplicidade desta fórmula é fácil, ou seja, perceber o mistério que às vezes é visto como um grande segredo, milagres ou castigos. O complicado é moldar a teoria às próprias dores e sentimentos, a nossa forma de ser, fazendo-os trampolim para avanços na senda evolutiva. Esta parte é árdua.  Não mais o mundo dos dogmas espirituais, religiosos ou filosóficos agirão e sim, o indivíduo sozinho, o peregrino solitário, seja de que seguimento for. É o terreno da realização, da vivência, do fazer, do transformar, do transmutar, onde a pessoa de fibra e coragem enfrenta seu grande inimigo: a si mesmo.

No alto dos meus trinta e poucos anos, olho para atrás e a dialética da vida surge. É fácil ver a teoria de Hegel (tese, antítese e síntese) se encaixar a vicissitudes do dia a dia. Tudo ocorre como é preciso ser, como deve ser. Plantamos hoje e colhemos amanhã. A alegria tem sua explicação, como a dor também. As respostas estão dentro de si, na síntese dos acontecimentos. Contudo, o amor e a dor não são eternos. Cada um tem seu estágio probatório em nossas vidas, seus ritos de passagem.

A cada dia mais venero o tempo, senhor absoluto da Vida. E o tempo nem sempre é cronológico. Podemos adiantar os ponteiros, fazendo nossa sorte, abrindo picadas, tentando modificar nosso caminho na medida do possível. Essas ações pertencem a almas exploradoras.

O relógio sempre atrasa para os teimosos, aqueles do reino das repetições. Vivem num labirinto onde as situações se diversificam para ensinar a mesma coisa. Estão aí os marcadores de passos. Mas aos que vencem os obstáculos e compreendem a sua razão de ser, não há alívio por muito tempo, pois outros dilemas aparecerão. É uma batalha. Muitas vezes é preciso vestir armadura para suportar a crueza do que surge.

Para os que cultivam o ódio como um jardim de flores murchas meus lamentos profundos. Embora o ódio e o rancor sejam importantes, têm prazo de validade. Esses sentimentos negativos são a catapulta que vai nos lançar rumo ao Nirvana ou ao inferno mental. Tudo depende de nossa vontade e força para dominá-los e supera-los.

Sinto pelos descontrolados dominados pelo desejo (desejo de ter, ser e fazer). São pobres de alma. Às vezes, eles sabem que causam o mal, mas não são fortes o suficiente para dominar a si próprios, estipular limites e ordenar suas vidas. Deixam-se levar pelas vontades, pelas agruras dos sentidos.  

Por isso, seguir o caminho do guerreiro sem espadas e atravessar com honestidade, lealdade e perseverança os portais que o tempo abre para nós, faz-nos pessoas melhores. Claro que nessa caminhada há muitas tentações, com o egoísmo, os vícios, as paixões, o desânimo. Mas para os lutares isso é a adrenalina para vencer. Descubram suas fraquezas, vistam-se de guerreiros, enfrentem-se e vençam. Seremos seres humanos melhores, e semeadores de um mundo mais sensato. Não esqueçamos também de estender a mão ao próximo.

Namastê

                     



Escrito por Cíntia Melo às 00h12
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Duas Estrelas

 

Em meu corpo carrego a tua coragem,

meu ventre te dei, gerei filhos teus.

 

Mas vejo a ressaca de mares abandonados,

num passado de recantos ainda velados.

 

Crio as duas estrelas de naturezas distintas:

sereia lunar e o cavaleiro dos quatro ventos.

 

Sorrisos e olhos, o que mais posso esperar?

És a única que sabes dos dias que hão por vir...

 

Das estrelas que cultivo em minhas mãos,

das flores e dos versos que um dia te devolverei.

  

 



Escrito por Cíntia Melo às 23h29
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Descobertas

Guirlanda de cetim enfeita meus cabelos,

uma mítica fugaz, uma hora foi até demais,

rastejo nua sobre tua pele de flor lilás.

 

Guitarras fazem solos para Robbie Williams.

É a música, o fogo, o corpo que desperta,

serpenteia terras, entre membros pálidos.

 

Guieiro Gita, se leio os quarenta versos,

eles ensinam sobre a dor e a beleza da rosa.

Teus lábios, sossego da deusa quase morta.

 

Guiador de minhas descobertas imperfeitas,

grito esfacelada pela leveza de teus carinhos,

e o desejo ressurge num abraço. Obrigado!



Escrito por Cíntia Melo às 22h19
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A mulher do mar e os olhos de sol

 

Tornei-me Domaris e por muitas águas naveguei.

Já chorei, gritei, morri e renasci, nem conto às vezes.

Tantas águas, lágrimas e muitas marés tempestivas.

 

Sobrevivi com o coração lavado nas águas da mãe dor,

lá que encontrei olhos de faróis para me guiar,

a visão mais linda que pude perceber: um sol a me fitar.

 

Sorri, chorei e admiti como é difícil reconhecer um paraíso.

Dá vontade de gritar, pensei que não merecesse o sorriso,

mesmo assim, sóis me fizeram ganhar intensos dias claros.

 

Parece loucura, mas minha vida obscura passou a brilhar,

quando vi as primeiras estrelas despontarem ante o abismo,

penei por noites escuras, antes de refletir o meu sorriso lunar.

 



Escrito por Cíntia Melo às 22h32
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Luz e Serpente

 

Não adianta pensares que és bom,

e ter medo de se mirar ao espelho,

ver tua alma fervilhar por sujos segredos.

 

Não passes a vida num sono acordado,

nem te percas no labirinto dos sentidos,

ele é a ilusão dos enganados.

 

Existe um belo mundo um pouco além

das fronteiras pálidas da aparência,

busque tua verdade na sincera essência.

 

Pois as mentiras que proferes

enganam mais a ti que a outrem.

Portas encantadas de seres o que não és...

 

Não te furtes da humildade,

nem sejas a serpente enroscada no talo da flor

ao oferecê-la a um amor, como tens feito.

 



Escrito por Cíntia Melo às 21h04
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Feiticeira

 

Sou filha da lua e do tempo,

mulher sagrada nas feridas,

que carrega a espada forjada na dor.

A força dos pensamentos é a cura,

a minha vontade, o caminho sem véus

onde vive a parte divina, sem ilusões.

Sou a grande senhora de mim.

Desbravo matas e florestas,

mas vou te buscar no tempo que for.

Tu carregas a lança de cristal,

espantas teus demônios,

mas meu corpo não há de ferir.

Canto meus lamentos num ritmo único,

sou a feiticeira que te persegues,

nem me percebes nos teus sonhos.

Sou levianas tentações,

a água que desejas beber

o alimento que buscas sem saber.



Escrito por Cíntia Melo às 00h07
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Vestida de Mar

 

Ontem à tarde fui à praia, deixar o sol aquecer meu corpo, evaporar meus temores, queimar os sentimentos pequenos e egoístas. Não seriam músicas mundanas, tocando ao longe, que quebrariam o feitiço daqueles instantes.

 

Meus olhos navegavam no horizonte. Os pensamentos se esvaziaram para que percebesse o ambiente a minha volta. Creio não ser capaz de descrever fielmente aquele momento, pois estava inserida na beleza pura, intocada. É uma paisagem sobreposta à paisagem, às luzes e aos encantos entre o mundo físico da natureza-matéria e suas vibrações em outros espaços.

 

Havia um corpo de mulher, a Mãe, A Grande Senhora da Vida. Andei por entre os babados acetinados de seu belo vestido, o mar. Deixei-os se reentrarem entre meus dedos. Suas borbulhantes lantejoulas de espuma alvas davam o toque final a seu charme e graciosidade.  Eram as ondas. A Senhora e seu magnetismo renovador, mãe das emoções, estava num vaivém compatível com o coração humano.

 

A lua surgia translúcida no meio da tarde. Quase cheia num branco pálido em oposição ao sol, este prestes a ensaiar se pôr. Eles eram testemunhas e compartilhavam dos segredos e mistérios do corpo da mulher: nutridora, protetora, provedora, sagaz, justa e impiedosa. Percebi meu corpo parte do Seu. Eu como um filete do imenso mar que a vestia.

Era uma estranha composição entre sua expressão amorfa e o meu próprio rosto. Reconheci-a como parte do meu ser, habitante de meu corpo, e eu, parte do seu todo, da imensidão da Terra. Uma analogia que me fez sentir como a Grande Senhora, compartilhar a sua formosura, encanto, beleza e divindade.

 

Observei as pegadas na areia molhada, marcando minha passagem. Lembrei-me que há um livro onde escrevo uma lenda pessoal. Atos, pensamentos e sentimentos, por vezes, esquecidos, estão registrados no invisível, como pegadas na areia. Com certeza, as ondas as apagarão do mundo físico, mas elas estarão guardadas num lugar secreto, onde também estão registradas as vicissitudes de minha vida.

 

O vento sussurrava fortemente em meus ouvidos numa língua incapaz de compreender racionalmente. Era uma música talvez. Uma melodia que acompanhava o som das ondas. Pude perceber a peculiaridade daquele instante. Abri os braços e rodopiei, olhando o belo céu ciano, imenso, sem um risco sequer de nuvens, manto claro e ascendente. Compartilhei de um momento em que ouvi, vi e senti o magnetismo integrado. Fui mar, vento e areia e percebi o pulsar da Senhora em meu próprio corpo.



Escrito por Cíntia Melo às 21h45
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Um sol moreno

 

Longo reflexo do sol

no teu corpo moreno,

olhos de animal das florestas

procuram-me, e me invento.

Passeio no infinito mar,

teu cheiro de maresia

desperta um instinto voraz.

 

Penso que sou desejada,

o teu colo é meu caminho,

e meus dias ganharam

as luzes de tua alma.

Recortes dos teus gestos

em formatos de carinho

apaixonam-me mais.

 

Retilíneos músculos teus,

mãos arrojam meu ventre

são a minha proteção e bênção.

Mas no vazio de meu quarto,

percebo tua ausência.

Foi um sonho de outros planos,

moreno-sol que atiçou meu coração.

 



Escrito por Cíntia Melo às 21h18
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É a Primavera que chega despertando saudades...

 

No percurso para o trabalho, enfrentando um engarrafamento de doer, senti uma saudade tremenda de meu pai. “Sr. João Melo”, o homem que me ensinou a admirar a natureza. Apresentou-me os astros, quando era pequenina, através de sua coleção de almanaque do pensamento. Ele o consultava para fazer plantações. Era agricultor. Pescávamos juntos, observa-o fazendo enxerto em rosas para que brotassem dos mais variados matizes. Era apaixonado por flores, sobretudo, rosas. Faleceu na chegada da primavera, há quatro anos.

 

No rádio toca James Taylor, “you've got a friend”, música que escutava, em meados dos anos 80, durante as férias escolares. Ia para a cidadezinha onde meus pais moravam, Brejões. Lá adorava ficar acordada até mais tarde e observar as fases lunares. Nas madrugadas frias, sentia-me seduzida, não sabia o porquê, observando a lua da varanda. Às vezes, nuvens escuras trafegavam rapidamente, ofuscando por alguns segundos o seu brilho, a sua imensidão.

 

Recordo-me, das tantas vezes, quando criança, que meu pai chegava do trabalho com uma rosa na mão para minha mãe. Cresci assim, cercada pela natureza, encantada pelos mistérios das noites. Morava nunca casa circundada por jardins e ao entardecer regava as plantas, com suas diversas espécies de flores e roseiras e seus tantos tons. Naquela época, nem dava o valor merecido a simplicidade da vida, tão singular e rara.

                           

E hoje estou eu inserida na floresta de concreto, entre prédios e máquinas, automóveis e reivindicações. Nem pareço mais àquela menininha interiorana que outrora fui, embora ainda carregue, com imenso carinho, todas as lembranças. Meus cabelos eram lisos, finos e compridos, criava cachorro e besouros (uns com chifres que apareciam no período chuvoso), banhava-me no riacho e tentava ajudar meu pai na lida na fazenda: entre bezerros e catando grãos nos cafezais.

 

Lembranças essas que fizeram as lágrimas rolarem, no meio de um engarrafamento sem fim. Senti falta do meu pai. Queria saber se teria orgulho por tudo que me aconteceu nos últimos quatro anos, ou se sentiria decepção. Queria que tivesse conhecido, encarnado, a minha Luna, o que a cronologia da vida terrena não tornou possível acontecer...

    

 



Escrito por Cíntia Melo às 14h21
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