Vestida de Mar
Ontem à tarde fui à praia, deixar o sol aquecer meu corpo, evaporar meus temores, queimar os sentimentos pequenos e egoístas. Não seriam músicas mundanas, tocando ao longe, que quebrariam o feitiço daqueles instantes.
Meus olhos navegavam no horizonte. Os pensamentos se esvaziaram para que percebesse o ambiente a minha volta. Creio não ser capaz de descrever fielmente aquele momento, pois estava inserida na beleza pura, intocada. É uma paisagem sobreposta à paisagem, às luzes e aos encantos entre o mundo físico da natureza-matéria e suas vibrações em outros espaços.
Havia um corpo de mulher, a Mãe, A Grande Senhora da Vida. Andei por entre os babados acetinados de seu belo vestido, o mar. Deixei-os se reentrarem entre meus dedos. Suas borbulhantes lantejoulas de espuma alvas davam o toque final a seu charme e graciosidade. Eram as ondas. A Senhora e seu magnetismo renovador, mãe das emoções, estava num vaivém compatível com o coração humano.
A lua surgia translúcida no meio da tarde. Quase cheia num branco pálido em oposição ao sol, este prestes a ensaiar se pôr. Eles eram testemunhas e compartilhavam dos segredos e mistérios do corpo da mulher: nutridora, protetora, provedora, sagaz, justa e impiedosa. Percebi meu corpo parte do Seu. Eu como um filete do imenso mar que a vestia.

Era uma estranha composição entre sua expressão amorfa e o meu próprio rosto. Reconheci-a como parte do meu ser, habitante de meu corpo, e eu, parte do seu todo, da imensidão da Terra. Uma analogia que me fez sentir como a Grande Senhora, compartilhar a sua formosura, encanto, beleza e divindade.
Observei as pegadas na areia molhada, marcando minha passagem. Lembrei-me que há um livro onde escrevo uma lenda pessoal. Atos, pensamentos e sentimentos, por vezes, esquecidos, estão registrados no invisível, como pegadas na areia. Com certeza, as ondas as apagarão do mundo físico, mas elas estarão guardadas num lugar secreto, onde também estão registradas as vicissitudes de minha vida.
O vento sussurrava fortemente em meus ouvidos numa língua incapaz de compreender racionalmente. Era uma música talvez. Uma melodia que acompanhava o som das ondas. Pude perceber a peculiaridade daquele instante. Abri os braços e rodopiei, olhando o belo céu ciano, imenso, sem um risco sequer de nuvens, manto claro e ascendente. Compartilhei de um momento em que ouvi, vi e senti o magnetismo integrado. Fui mar, vento e areia e percebi o pulsar da Senhora em meu próprio corpo.
Escrito por Cíntia Melo às 21h45
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