Os portais do tempo e o guerreiro
Seria inusitado se o óbvio não se interpusesse aos nossos olhos com freqüência: o tempo é guardião de grandes respostas. Basta prestar atenção. Note a jornada pessoal de cada um de nós. A teia da vida, de forma majestosa, conecta-se a acontecimento, tece seus fios, movimenta-se por caminhos inesperados, ou às vezes previsíveis. Em nossa existência, estão embotadas relações (com pessoas, coisas ou situações) que se desenrolam em fatos, que por sua vez, geram aprendizados. A lei cósmica da ação e reação se mostra claramente, aponta os enganos, desfaz os falseados sentimentos.
Descobrir a simplicidade desta fórmula é fácil, ou seja, perceber o mistério que às vezes é visto como um grande segredo, milagres ou castigos. O complicado é moldar a teoria às próprias dores e sentimentos, a nossa forma de ser, fazendo-os trampolim para avanços na senda evolutiva. Esta parte é árdua. Não mais o mundo dos dogmas espirituais, religiosos ou filosóficos agirão e sim, o indivíduo sozinho, o peregrino solitário, seja de que seguimento for. É o terreno da realização, da vivência, do fazer, do transformar, do transmutar, onde a pessoa de fibra e coragem enfrenta seu grande inimigo: a si mesmo.
No alto dos meus trinta e poucos anos, olho para atrás e a dialética da vida surge. É fácil ver a teoria de Hegel (tese, antítese e síntese) se encaixar a vicissitudes do dia a dia. Tudo ocorre como é preciso ser, como deve ser. Plantamos hoje e colhemos amanhã. A alegria tem sua explicação, como a dor também. As respostas estão dentro de si, na síntese dos acontecimentos. Contudo, o amor e a dor não são eternos. Cada um tem seu estágio probatório em nossas vidas, seus ritos de passagem.
A cada dia mais venero o tempo, senhor absoluto da Vida. E o tempo nem sempre é cronológico. Podemos adiantar os ponteiros, fazendo nossa sorte, abrindo picadas, tentando modificar nosso caminho na medida do possível. Essas ações pertencem a almas exploradoras.
O relógio sempre atrasa para os teimosos, aqueles do reino das repetições. Vivem num labirinto onde as situações se diversificam para ensinar a mesma coisa. Estão aí os marcadores de passos. Mas aos que vencem os obstáculos e compreendem a sua razão de ser, não há alívio por muito tempo, pois outros dilemas aparecerão. É uma batalha. Muitas vezes é preciso vestir armadura para suportar a crueza do que surge.
Para os que cultivam o ódio como um jardim de flores murchas meus lamentos profundos. Embora o ódio e o rancor sejam importantes, têm prazo de validade. Esses sentimentos negativos são a catapulta que vai nos lançar rumo ao Nirvana ou ao inferno mental. Tudo depende de nossa vontade e força para dominá-los e supera-los.
Sinto pelos descontrolados dominados pelo desejo (desejo de ter, ser e fazer). São pobres de alma. Às vezes, eles sabem que causam o mal, mas não são fortes o suficiente para dominar a si próprios, estipular limites e ordenar suas vidas. Deixam-se levar pelas vontades, pelas agruras dos sentidos.
Por isso, seguir o caminho do guerreiro sem espadas e atravessar com honestidade, lealdade e perseverança os portais que o tempo abre para nós, faz-nos pessoas melhores. Claro que nessa caminhada há muitas tentações, com o egoísmo, os vícios, as paixões, o desânimo. Mas para os lutares isso é a adrenalina para vencer. Descubram suas fraquezas, vistam-se de guerreiros, enfrentem-se e vençam. Seremos seres humanos melhores, e semeadores de um mundo mais sensato. Não esqueçamos também de estender a mão ao próximo.
Namastê

Escrito por Cíntia Melo às 00h12
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