Noturna


 

A liberdade que escraviza

 

Na adolescência, analisada de modo prosaico, a palavra liberdade carrega em si a maior parte dos signos a que representa.  Para o jovem, liberdade é a insígnia de fazer o que quer, chegar em casa sem estresses de horários. Ou seja, nem sempre cumprir regras as quais os pais, escola ou sociedade impõem. Mais que isso, significa transgredir qualquer limitação.

Porém analisando com cautela, a liberdade que o ser humano pode usufruir precisa de um olhar minucioso. Com a maturidade, ela vai ganhando contornos maldosos que nem sempre são percebidos por suas sutilezas. De algum modo lembra o mito do deus grego Apolo. Tão intenso e solar, o cavalheiro do Olimpo ofertava luz em demasia ofuscando a sombra necessária para o amadurecimento do que era gerado.

Assim é a liberdade. Nem sempre poder fazer o que se tem vontade significa ser livre, pois nem toda liberdade significa a luminosidade. A liberdade é capaz de escravizar. Isso cria um antagonismo obscuro que não é tão facilmente perceptível.

Vícios, dependências ou manias condicionantes tolhem o poder de liberdade. Essas penumbras é um grande engodo que ilude este sentimento - por assim dizer - estado de espírito, direito civil, financeiro ou ainda emocional de ser realmente livre.

Tudo o que é capaz de ser mais forte do que a própria razão da alma é escravizador e se contrapõe ao estado do “ser livre”. Nem todas as pessoas que pensam serem detentoras da liberdade na verdade a são. Livres são os senhores da própria alma, do seu pensar, do agir e do ser capaz de balizar suas emoções.

A verdadeira liberdade mora longe dos grilhões da escravidão. Na sociedade angustiante e neurótica atual pode-se concluir, então, que há mais escravos que seres humanos realmente livres. Das relações estabelecidas com si mesmo, com pessoas ou grupos sociais, sutilmente surgem algemas que condicionam pessoas a comportamentos compulsivos, sentindo-se, contraditoriamente, a mais livre das criaturas.

 



Escrito por Cíntia Melo às 00h05
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